Qualquer membro da chamada civilização Ocidental, dita esclarecida e iluminada, sabe o que é um Xis. Padarias, lanchonetes, restaurante, em todos estes estabelecimentos é possível travar contato com o X-Burguer, nas suas mais diversas modalidades: com bacon, salada e, para os afeitos a invencionices, cogumelos (“shimeji”) e iogurte com hortelã (morte da alma).
Na cidade de Porto-Alegre, capital do bairro do Rio Grande do Sul (“Uruguai do norte”), o Xis é uma entidade distinta. Saem os tradicionais pão de hambúrguer, o equilíbrio entre os recheios e a portabilidade, características essenciais do lanche metropolitano. Entra um pão tipo “massinha” (que lembra o nosso sírio), gigante, desproporcional até, prensado na chapa, contendo em seu interior a carne de escolha do cliente.
Dentro deste paradigma, a modalidade mais celebrada entre os locais é o Xis-Coração, que está para a culinária sulista assim como Renato Portaluppi está para o futebol e Leonel Brizola para a retórica. Contendo algo entre vinte e trinta corações de galinha, e mais alface, tomate, maionese, ervilha, milho, ovo e queijo — com raras variações —, o X-Coração é um monumento ao exagero e uma celebração da vida.
Onipresente no estado, o Xis custa algo entre R$5,00 e R$9,00, dependendo do estabelecimento, e costuma ter versões acebolada e com bacon. Nos últimos anos, o uso do presunto na confecção do lanche migrou das cidades interioranas para a capital — não sem acirrar brios mais tradicionalistas —, e hoje pode ser encontrado nas melhores casas do ramo, como nos trailers à beira do Guaíba (ref. uso da água do rio para gelo e lavagem de louça).
Aos mais destemidos, recomendamos uma visita à Lancheria do Parque (Av. Osvaldo Aranha, 1086), mãe do que é considerado o X-Coração quintessencial da cidade, graxento e farto, um desafio até aos gourmands mais habilidosos. Difícil de manobrar, o Xis da Lancheria pede, num primeiro momento, garfo e faca. A primeira incisão, todavia, revela as falhas estruturais do lanche, fazendo com que os recheios transbordem violentamente.
Comer com a mão é inviável: imerso em maionese, o pão fica mole, e não raro se parte entre os dedos. A maneira correta, aprendemos, é incluir em cada garfada, com o auxílio da faca, todos os ingredientes. No prato, o resultado pode ser esteticamente desagradável, mas combinar e equilibrar os ingredientes do próprio Xis no garfo faz parte dessa rica aventura cultural.
Há outras casas célebres. No Cavanhas (Rua General Lima e Silva, 274), ele vem submerso numa camada poderosa de batatas fritas. No Xis Coqueiro (Av. Wenceslau Escobar, 3125), ganha contornos épicos, na forma do X-Calota, lanche de diâmetro avantajado (ref. calota) e destinado exclusivamente aos famélicos da terra (serve quatro).
Que este mitológico lanche ainda não tenha vencido as barreiras culturais que separam o sul do sudeste, é uma lástima. Ainda assim, uma eventual “reinvenção” paulistana do X-Coração inevitavelmente incluiria cogumelos e iogurte com hortelã. Na dúvida, prefira sempre os lanches que podem conduzi-lo a uma eventual “congestão”, em detrimento aos que podem ser “harmonizados”, “degustados” e “apreciados”.